Calmaria I

Se você me acompanha, sabe que desde o fim do ano passado entrei numa calmaria que quase nem escrevi a reflexão de fim de ano. Eu achava que esse silêncio por dentro fosse um momento de parada! Reajuste de rota, inação; mas não!!

Na verdade se trata de um momento (ou uma nova fase?) de ação completa. É até difícil expressar em palavras, acho que só quem passou por isso sabe o que é 🤷‍♀️

Assim, decidi escrever um texto que há anos pensei de escrever. Acredite! Devido ao trabalho de pesquisa da escrita, acabei desistindo!! Já essa nova fase, no entanto, me fez perceber que existem trabalhos que valem a pena ter!

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Quando estava na UFABC cursei uma disciplina chamada História da Ciência no Brasil e a profa., ao invés de partir dos cânones do pensamento científico (que são centralizados no pensamento europeu), partiu de uma perspectiva Latino Americana de ciência, desde a chegada dos portugueses.

⚠️ Antes de continuar, deixo claro que este texto é um recorte da disciplina que, por sua vez, é muuuito maior que este post!⚠️

Primeiro, definiu-se os 4 pilares da ciência, ou do fazer científico que aqui funciona quase como a ciência em si:

1. Ciência como produção de conhecimento
2. Comunidade científica
3. Conhecimento humano
4. Política científica

Partindo sempre do princípio de que quem faz ciência acaba definindo muita coisa sobre a ciência feita! Ou seja, os agentes das práticas científicas definem as práticas envolvidas no processo científico, o que impacta diretamente nos seus resultados! É dividida em 3 fases:

Ciência AntigaRevolução CientíficaCiência Moderna

Foi na revolução científica que surgiram nomes como Da Vince, Copérnico, Galileu, Francis Bacon e tantos outros.

Nesse contexto é importante saber que não se faz ciência ‘sozinho’. Esses nomes ganharam notoriedade por coisas que eles em conjunto com outros contemporâneos a eles, ou mais antigos, já estavam estudando.

É daí que vem aquela frase super famosa do Newton: “Se enxerguei mais longe, foi por estar nos ombros de gigantes” 🙄 quer dizer, não se faz ciência tirando da cartola; se faz a partir do conhecimento acumulado de outros que nos antecederam.

Lembre-se, um dos pilares da ciência é a produção de conhecimento!

E é aqui que meu texto começa de verdade! 🤣 após todo esse preâmbulo, gostaria de (re)começar dizendo que já existia produção de conhecimento nas terras em que os portugueses chegaram em 1500.

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E quem dá base para essa afirmação é uma historiadora chamada Daniela Buono Calainho, em um artigo no qual ela conta um pouco sobre os Jesuítas e Medicina no Brasil Colonial. A seguir, exponho um pouco do texto dela:

No referido texto, a autora explora a chegada do portugueses no Novo Mundo e conta como as doenças trazidas por eles dizimaram as populações residentes. Além disso, fala também sobre como os gentios (nas palavras da autora) eram vistos como brutais e animalescos por serem integrados àquela natureza estranha – de novo, nas palavras da autora!

Apesar dessa percepção demoníaca que os jesuítas tinham dos originários, “levaram para a Europa o conhecimento das virtudes terapêuticas de raízes, caules, folhas, cascas, sumos, polens, minerais e óleos, a exemplo da quina, planta da região da Amazônia, que curava a malária e era conhecida como ‘mezinha dos padres da Companhia de Jesus'”.

A ipecacuanha também já era era conhecida pelos nativos como uma erva excelente para problemas respiratórios e teve suas virtudes divulgadas na Europa em 1625, por meio de um manuscrito de autoria do Padre Fernão Cardim.

Já o “Padre Manoel da Nóbrega, por exemplo, remeteu a Portugal algumas conservas de efeito terapêutico, como suco de ananás verde, para ‘pedras e areias na urina’, recomendando que viessem ao Brasil os que deste mal sofressem”. Talvez venha daí nossos sucos detox, quem nunca tomou um suco verde!? 🙃

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Outro recorte da disciplina para este texto, e que já naquela época me chamou a atenção, é a Comissão Rondon, datada do século XX, visava à exploração científica do Brasil por brasileiros, incluindo indígenas que “funcionariam como guias, remadores de canoas e auxiliares nos serviços de derrubada da mata e instalação dos postes telegráficos”.

No que diz respeito à exploração científica, a expedição foi bem sucedida, mas também foi um perrengue só 😅 sumiços, mortes, doenças, calor, animais peçonhentos, desistências… uma verdadeira aventura!! Se quiser saber mais, leia: Telégrafos e inventário do território no Brasil: as atividades científicas da Comissão Rondon (1907-1915).

Para terminar, tenho a sensação de que a Física não é exatamente a ciência mais amada de todas; entretanto, aprendemos que existem um fenômeno óptico, chamado refração da luz, que ocorre quando a luz sofre mudança do meio de propagação. Olha que interessante, para serem bem sucedidos na pesca, os indígenas sempre souberam disso, apesar de certamente desconhecerem as fórmulas envolvidas…

Indígena pesca em área preservada na região central da Amazônia - FAPESP

Fonte da imagem: Revista Pesquisa FAPESP

Por fim, concluímos que já existia produção de conhecimento nas Novas Terras. O que não existia era a sistematização desse conhecimento que, hoje em dia, é fundamental na prática científica.

➡️ A produção de conhecimento não é exclusiva desse modo ‘moderno’ de fazer ciência. Ainda hoje, existe conhecimento produzido por populações tradicionais, como o Manual dos remédios tradicionais Yanomami, só para dar um exemplo.

Teremos o texto Calmaria II porque é impossível falar tudo o que tenho em mente em um post só.

Se você sabe muito sobre Ciência no Brasil a partir de uma perspectiva Latino Americana e encontrou algum erro, me deixe saber!

Até breve! E me ajude a divulgar o blog 🥰

Modelos de maternidade

Esses dias ouvi um grito de socorro, uma voz de menina gritando ‘eu preciso de ajuda’. Tinha acabado de colocar roupa, saindo do banho, de cabelo molhado num início de noite que marcava 13°C 🌨️

Saí correndo, peguei a chave do portão e fui ver se poderia ajudar de alguma forma.. a única coisa que pensei foi: se ela tá gritando, ele não tá armado. E fui!

Cheguei na rua, um pouco abaixo da minha casa, estava uma menina no chão; sendo socorrida por uma mulher que esperava a filha e a sobrinha saírem da escola, estava falando com o resgate.

O nome da acidentada era Amanda e ela perdeu o equilíbrio descendo minha avenida de skate; o pé esquerdo estava visivelmente quebrado.

Ela queria a mãe dela. Tinha apenas 15 anos! Fui correndo pegar meu celular pra ligar pra mãe dela.

Um rapaz que também esperava alguém sair da escola foi buscar a mãe. Uma meia hora depois, o rapaz voltou com a mãe da Amanda. Estávamos todos aguardando o resgate.

A mãe chegou, de all star preto, jaqueta jeans com moletom preto de touca por baixo, disse boa noite para todos e foi ao encontro da filha caída no chão, que estava consciente, oferecendo bala que tinha no bolso.

Conversou um pouco com a filha, acalmou dizendo não tem problema, filha… que, por sua vez, já nos avisara que não pararia de andar de skate.

Após acalmar a menina, a mãe vira para nós e pergunta, vocês acham que ela vai parar de andar de skate?

Claro que não!! Ela já disse que vai continuar! Olhei para a mãe e disse: uma mãe cabeça aberta e ela me respondeu: sou mesmo!

“Isso acontece! Estava de skate, caiu, quebrou o pé, encontrou vocês.. mas ter vindo sozinha foi um erro, de dia com os amigos é uma coisa, essa hora, sozinha, quem que você vai encontrar lá?! (olhando para a menina)”

Pouco tempo depois, a ambulância chegou e elas foram!

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Instantaneamente eu amei aquela mãe! Descolada, cabeça aberta e encarando a vida de frente. Um modelo de mãe que, de repente, eu me encaixaria!!!

Se ouvir um pedido de socorro, atenda! 💗

FIM!

Contra fatos não há argumentos!

Tenho visto uns vídeos nas mídias sociais dizendo que feminicídio não existe, que é uma “invenção” do feminismo. Eu não dou muita bola. Mas, com o caso da Gisele e do Tenente-Coronel da PM eu não podia deixar passar. Por isso decidi escrever este texto. Feminicídio existe sim! E no caso deles isso fica bem claro!

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O termo “feminicídio” não sei de onde veio, se é moderno, contemporâneo ou se, realmente, adveio dos estudos relacionados ao feminismo.

Assassinato de mulheres ou de meninas motivado pelo menosprezo da condição feminina, por violência doméstica ou por outras razões relacionadas ao fato de ser mulher. Crime de ódio contra mulheres, definido por agressões verbais, físicas e psicológicas.

Além disso, segundo um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada):

“A expressão máxima da violência contra a mulher é o óbito. As mortes de mulheres decorrentes de conflitos de gênero, ou seja, pelo fato de serem mulheres, são denominados feminicídios ou femicídios. Estes crimes são geralmente perpetrados por homens, principalmente parceiros ou ex-parceiros, e decorrem de situações de abusos no domicílio, ameaças ou intimidação, violência sexual, ou situações nas quais a mulher tem menos poder ou menos recursos do que o homem”

O raciocínio é relativamente simples!

Mulher que foi arrastada na Marginal morre em hospital de SP | CNN NOVO DIA – será que o homem que atropelou e arrastou essa mulher faria isso com um amigo do sexo masculino? Mesmo que não fosse um amigo, fosse um homem qualquer com quem ele teve um desentendimento. Se a resposta é Não! Ele não faria com um homem. Então é feminicídio!

Jovem esfaqueada por negar pedido de namoro tem alta após quase 1 mês internada; mãe fala em milagre – O homem que tentou matar essa moça porque foi contrariado no pedido, faria o mesmo com um homem que o contrariasse em um pedido semelhante ou até mesmo mais banal? Se a resposta é Não, ele não faria isso com um homem! Então é tentativa de feminicídio!

No caso da Gisele, ela não era uma mulher comum; ela era PM também, tinha um treinamento militar, igual o marido dela. E o que ele fez? Segundo o mosaico probatório, ou seja, a investigação da cena do crime

“indica que Gisele foi abordada por trás. O laudo necroscópico registrou ‘estigmas digitais’ (marcas de dedos) na mandíbula e ‘estigma ungueal’ (marca de unha) no pescoço, sugerindo que ela foi imobilizada com força. Foram encontradas ainda lesões recentes na face e na axila, compatíveis com uma agressão física prévia ao disparo”

Fonte: UOL SP

Tão canalha que imobilizou a mulher pelas costas. Talvez ela, com o treinamento que tinha, tivesse condições de se defender!

Entretanto, Laudo aponta relação sexual antes da morte de PM; tenente-coronel negou. É para isso que mulher serve! Para transar somente. Abrir as pernas e servir sexualmente, “fêmea beta obediente e submissa” – nas palavras do Tenente-Coronel.

A soberba do assassino é tamanha que ele mesmo diz:

“Sou mais que um príncipe
Sou Rei
Religioso
Honesto
Trabalhador
Inteligente
Saudável
Bonito
Gostoso
Carinhoso
Romântico
Provedor
Soberano”

Fonte: CNN Brasil

A parte do religioso é o que me preocupa mais!! De tudo o que as mensagens mostram, o adjetivo Religioso é o que mais me preocupa porque esse tipo de pensamento justificou atrocidades ao longo da história da humanidade!

Deus acima de tudo!
Guerras Santas!

Bom, o texto é esse! Tive que respirar fundo para escrever porque evito esse tipo de reportagens, por motivos óbvios: Preservar minha Saúde Mental!

Se quiser saber mais:

Como dito no título do post, contra fatos não há argumentos! Até a próxima!

O que é uma teoria?

Nessas férias, assisti um debate sobre feminismo, visando saber o que se tem falado a respeito do tema, já que não sou da área mas sou uma mulher num mundo de homens ✊

Uma das pautas colocadas foi a questão do feminismo junto às pautas LGBTQIA+ e, uma das participantes disse que “isso é só uma teoria”. Bom, no fim do debate concluí que, aparentemente, não se sabe o que é uma teoria em Ciências Sociais e este post tem por objetivo esclarecer isso!

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Para responder a pergunta do título deste texto é preciso perguntar antes, o que é a realidade? Seria a mesma para mim e para você? Será que nossas realidades são iguais às das pessoas que nasceram na região Norte ou Nordeste do Brasil? Ou seria a mesma das pessoas da parte Sul do País? Ou até de outras regiões do mundo?!

Quando acordamos de manhã e abrimos os olhos, instantaneamente a realidade está lá, sem ser questionada. Apenas se apresenta na repetição de todos os dias… temos nossa vida que achamos ser real; e, por conseguinte, medimos os outros com nossas medidas, ignorando que eles têm suas próprias medidas baseadas em suas próprias realidades 🤯

Para não deixar a pergunta sem resposta, já vou dar logo duas e você escolhe qual que você prefere:

“O mundo é o reflexo da nossa mente, o que o cérebro faz é gerar a realidade na qual pensamos que vivemos. Quando você olha para mim, você pensa que sou real, que estou de pé na sua frente, mas, na verdade, é algo de dentro do seu cérebro” – Rafael Yuste, neurocientista espanhol.

“Temos os cinco sentidos que nos permitem captar informações do ambiente em que existimos. A partir da captação de imagem, som, tato, sabor e odor, construímos uma narrativa do que é a nossa realidade” – Marcelo Gleiser, físico brasileiro.

Fonte: Mente, tempo e realidade: os olhares da neurociência e física

Só que existe também uma coisa chamada realidade social que é maior do que a nossa realidade pessoal. Por isso existe uma outra coisa chamada análise sociológica que tem por objetivo analisar os fenômenos que compõe a realidade social.

Na Sociologia existem três autores clássicos. O mais famoso, e odiado, é o Karl Marx. Mas existem outros como o Émile Durkheim, considerado o fundador da Sociologia enquanto Método e é dele o conceito de Fato Social; além do Max Weber que propôs uma análise muito interessante sobre A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

Para compreender a proposta de cada um é preciso contextualizar historicamente suas obras, que são dos séculos XIX e início do XX numa sociedade de transição do Feudalismo para o Capitalismo, ou da Idade Média para a Modernidade. Por isso que se você for ler alguma coisa deles encontrará o termo “capitalismo moderno”, é o capitalismo da sociedade deles. Hoje, o capitalismo sob o qual a sociedade opera é o capitalismo financeirizado.

Até aqui, estou tentando mostrar que a realidade social é tão complexa quanto a nossa realidade pessoal (e ainda mais).

Como tudo o que é muito complexo precisa ser reduzido, ou modelado, para ser compreendido em sua complexidade, surgem assim as Teorias acerca da realidade social. Ou seja, o cientista social olha para a sociedade e vê quais são os fenômenos da época em que vive, a partir daí propõe uma teoria com a qual a realidade social pode ser descrita e compreendida.

Cada teoria pode ser entendida como uma “lente colorida”. Por exemplo, se assisto um filme em 3D, preciso colocar os óculos de efeito 3D, senão nada acontece!

As teorias das Ciências Sociais são como essas lentes. Cada uma delas possibilita entender a realidade social a partir de uma perspectiva própria. Por isso existem várias teorias e vários autores. Por vezes, essas teorias se complementam, mas também podem se contradizer.

Voltando ao tema do debate, a questão da sexualidade não é “só uma teoria”. É um fato, ou um fenômeno, que existe na sociedade e deve ser compreendido em sua complexidade!

Naturalmente o sexo biológico existe! Se o bebê nasce com vagina é menina, se nasce com pênis é menino. Ok. No entanto, as pessoas crescem e se tornam algo além das suas funcionalidades biológicas. São as subjetividades das pessoas que as tornam humanas e nem todas se identificam com o sexo de nascimento. Daí surgem as Teorias de Gênero.

As teorias são novas, os fenômenos não! Pessoas que não se identificam com o sexo de nascimento sempre existiram na história da humanidade.

Para não alongar muito o texto, deixo duas referências de leitura para você ver o que é a divisão de gênero e como isso nos afeta enquanto pessoas, para além da nossa identidade de gênero.

Espero que agora as coisas tenham ficado mais claras! Caso tenha encontrado algum erro 😅 me deixe saber!!

E me ajude a divulgar o blog!! 🥰