Nessa disciplina entendi melhor o que é Agricultura Familiar. Pode ser compreendida como uma instituição social que visa manter a reprodução da família, mas também é um termo genérico que incorpora múltiplas situações particulares, mantendo uma ordem tradicional que lhe define frente aos padrões globais de produção e consumo (Silva et al., 2021; IBGE, 2020).
Esses agricultores, familiares, são marcados por um patrimônio de saberes e práticas tradicionais que, em certa medida, se ajustam à modernidade; entretanto, não rejeitam suas raízes camponesas (Silva et al., 2021). “Esse tipo de agricultura reúne o maior número de unidades produtivas no País e contribui com parcela significativa de empregos associados às atividades agropecuárias, artesanais e agroindustriais a ele vinculadas, seja no campo ou na cidade” (IBGE, 2020, p. 292).
Como um sistema de reprodução social, promove diversas espacialidades e diversas temporalidades, permitindo a reprodução da família, mas não se limitando a ela, não só em termos econômicos, mas também culturais, visto que essa transmissão de saberes tradicionais proporciona a continuidade de práticas agrícolas harmoniosas com o meio ambiente (IBGE, 2020), podendo ser tipificada, segundo o IBGE (2020), em 3 categorias:
Família agrícola de caráter empresarial: tem produção rentável e voltada para o mercado;
Família camponesa: tem por finalidade a manutenção da produção agropecuária e da propriedade familiar, sem orientar a produção ao mercado;
Família agrícola urbana: possui um sistema de valores próprios, orientando a produção com foco na qualidade de vida, sem desmerecer a realidade de mercado nem os valores da família camponesa.
Porém, existe ainda um outro tipo de agricultura familiar que a princípio, na minha perspectiva, não se encaixa em nenhuma dessas 3 categorias acima descritas, sendo conhecida como coivara ou agricultura de corte e queima ou agricultura itinerante (Ferreira, Lima & Ribeiro, 2024; Marinho Luiz et al., 2020).
Referências: FERREIRA, R.; LIMA, E. & RIBEIRO, R. Transformando a floresta em comida: as roças de coivara e o manejo do fogo. HAAL 5: 1, Maio 2024, pp. 39-60 IBGE. Agricultura Familiar in Atlas do espaço rural brasileiro. Coordenação de Geografia. 2. ed. Rio de Janeiro, 2020. MARINHO LUIZ, V.; MARINHO DA SILVA, L.; AMÉRICO, M.C.; FRANÇA DIAS, L.M. Roça é vida. IPHAN – Grupo de Trabalho da Roça. São Paulo, 2020. SILVA, A. J.; BARBOSA, E. L.; SANTOS, L. P.; BRITO VIEIRA, V. C.; CHAVES, S. V. V.; SILVA JÚNIOR, F. J. Estratégias de reprodução socioeconômica da agricultura familiar no cerrado piauiense. Research, Society and Development, v. 10, n. 14, e388101422124, 2021.
Territórios Tradicionais, como os quilombos, são os espaços necessários à reprodução cultural, social e econômica de povos etnicamente diferenciados (Brasil, 2007); já se organizavam no Brasil desde o século XVI, junto à rebeliões e fugas (Maringoni, 2011).
Entretanto, foi apenas em meados do século XX que os quilombos foram reconhecidos, a partir de pesquisas cujas pautas se centralizaram na questão da etnicidade, que visam às identificações culturais de origens étnicas e raciais (Bezerra Carril, 2017), o que fortalece a ideia de que no Brasil o processo de conquista de direitos é sempre presente, e a luta por justiça e educação se remetem à história da formação social brasileira (Bezerra Carril, 2017).
Apesar de em 2025 o Brasil atingir a menor taxa de analfabetismo desde 2016, “o analfabetismo de pretos ou pardos com 60 anos ou mais é quase três vezes superior ao de brancos” (Brasil, 2025), demonstrando que a sociedade brasileira é estruturalmente racista e desigual.
Reforçando essa hipótese, historicamente, o negro no Brasil foi largado à própria sorte: “após a assinatura da Lei Áurea não houve uma orientação destinada a integrar os negros às novas regras de uma sociedade baseada no trabalho assalariado” (Maringoni, 2011).
Tampouco foi feito um esforço de integrá-los à educação, visto que “a educação brasileira alijou grande parcela da sociedade de um ensino público, gratuito e de qualidade, verificando-se ainda que o afrodescendente compõe, até os dias atuais, o maior número de estudantes que se evade da escolarização completa” (Bezerra Carril, 2017).
É nesse contexto que Bezerra Carril (2017) se propõe a pensar uma educação diferenciada, baseada “nos contextos de uso do território, da etnicidade e da memória presentes nas narrativas dos sujeitos no intuito de construir metodologias que proporcionem aprendizagens tendo como ponto de partida elementos referentes às realidades locais das comunidades”. (grifos meu)
Por tudo isso, propus analisar os dados do Censo Quilombola (IBGE, 2022) e os Microdados do Censo da Educação Básica, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep, 2025), para verificar a situação atual da educação quilombola em relação às escolas diferenciadas. Eis a análise:
Dados e Metodologia
Censo Quilombola, IBGE 2022, com a Tabela 10091 – Taxa de alfabetização da população, total e quilombola, de 15 anos ou mais de idade, por sexo, grupos de idade, localização e situação do domicílio e a variável Taxa de alfabetização das pessoas quilombolas de 15 anos ou mais de idade (%) – Total Urbano e Total Rural.
Censo Quilombola, IBGE 2022, com a Tabela 10089 – População residente, total e quilombola, por sexo e grupos de idade, segundo localização e situação do domicílio e variável Pessoas quilombolas – Total Urbana e Total Rural.
Censo Escolar, INEP 2025, com a Tabela Escola 2025 e a variável Materiais pedagógicos para a educação escolar quilombola – Instrumentos, materiais socioculturais e/ou pedagógicos em uso na escola para o desenvolvimento de atividades de ensino aprendizagem.
Essas tabelas estão disponíveis em seus respectivos sites, sendo disponibilizadas em arquivos .xlsx ou .ods ou .csv. A unidade de análise foram os Municípiosdo Brasil que possuem informação sobre a taxa de alfabetização quilombola. Todas as camadas de dados foram colocadas no Sistema de Coordenadas Geográfica, SIRGAS 2000 e os softwares utilizados foram o QGIS versão 3.40.15-Bratislava e Excel Microsoft Office Home 2024.
O arquivo das Escolas, disponibilizado pelo INEP, têm coordenadas geográficas, o que facilita subir o arquivo em Sistemas de Informações Geográficas e em seguida exporta-lo como shapefile. No caso das planilhas disponibilizadas pelo IBGE, os arquivos .csv foram unidos à malha cartográfica municipal (IBGE, 2025) pelo código do município nas propriedades da camada, sendo, neste último caso, retiradas as feições com NULL, utilizando a expressão ‘valor’ is not null. Em relação aos dados da Tabela 10089 – Pessoas Quilombolas – foram analisados os mesmos municípios que têm taxa de alfabetização; para isso foi feita uma busca por seleção, parâmetro equal.
Resultados e Discussão
A população quilombola residente no Brasil é de 1.330.186 pessoas (IBGE, 2022). Entretanto, para este trabalho apenas os municípios que têm taxa de alfabetização quilombola foram analisados, totalizando 93.037 quilombolas residentes, sendo divididos entre População Quilombola Rural e Urbana. A seguir, o gráfico 1 mostra tais populações:
Gráfico 1: População quilombola brasileira – Rural e Urbana Fonte: Censo IBGE 2022 | Elaboração própria
População Quilombola Urbana
Em relação à taxa de alfabetização de pessoas quilombolas em ambientas urbanos, temos os seguintes valores:
Valor mínimo: 25%
Valor máximo: 100%
Média: 92,23%
Mediana: 100%
Amplitude: 75
Valores faltantes: 243 de um total de 510 municípios.
Sendo que a maioria dos municípios com essa informação disponível estão na classe entre 85 e 100% da população alfabetizada (figura 1).
Figura 1: Taxa de alfabetização quilombola por município/Brasil – Urbano Fonte: Censo IBGE 2022 | Elaboração própria
Em relação à população quilombola em ambiente urbano, os valores são os seguintes (figura 2):
Total: 37.360
Valor mínimo: 1
Valor máximo: 4.851
Média: 102,63
Mediana: 9
Amplitude: 4.850
Valores faltantes: 146 de um total de 510 municípios
Assimetria: 8.10 – indicando que os valores estão bem abaixo da média.
Figura 2: População Quilombola e Taxa de alfabetização quilombola por município/Brasil – Urbano | Fonte: Censo IBGE 2022 | Elaboração própria
População Quilombola Rural
A taxa de alfabetização de pessoas quilombolas em ambientes rurais, seguem os seguintes valores:
Valor mínimo: 25%
Valor máximo: 100%
Média: 88,01
Mediana: 100%
Amplitude: 75
Valores faltantes: 229 de um total de 510 municípios.
Sendo a maior parte dos municípios concentrados na classe de 80 a 100% (figura 3):
Figura 3: Taxa de alfabetização quilombola por município/Brasil – Rural Fonte: Censo IBGE 2022 | Elaboração própria
Em relação à população quilombola em ambiente rural, seguem os valores (figura 4):
Total: 55.677
Valor mínimo: 1
Valor máximo: 4.491
Média: 137,13
Mediana: 8,5
Amplitude: 4.490
Valores faltantes: 104 de um total de 510 municípios
Assimetria: 6,09 – indicando que os valores estão abaixo da média.
Figura 4: População Quilombola e Taxa de alfabetização quilombola por município/Brasil – Rural | Fonte: Censo IBGE 2022 | Elaboração própria
Escolas Diferenciadas
Em relação às escolas, no total são 214.192 localizações distribuídas pelo Brasil inteiro. Porém, dessas, apenas 1.941 têm materiais pedagógicos para uma educação quilombola diferenciada.
Contudo, como se trata de localização, vários pontos caem fora da fronteira brasileira; por isso, foi feito uma busca por localização para analisar apenas as escolas que estão dentro do limite brasileiro; parâmetro usado are within, resultando em 1.519 escolas com materiais diferenciados para quilombolas (figura 5).
Entretanto, sendo a unidade de análise os municípios que possuem taxa de alfabetização, foi feito ainda uma nova busca por localização para verificar quantas escolas diferenciadas estão dentro dessas unidades de análise, resultando em 159 apenas (figura 6); em relação aos municípios com escolas diferenciadas, são apenas 85 (figura 7).
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Discussão
Em relação às taxas de alfabetização não existem grandes diferenças. A maioria dos municípios tem taxa de alfabetização entre 80 e 100%, indicando que a população quilombola é, em grande parte, alfabetizada, tanto em ambiente urbano como em ambiente rural.
No que diz respeito à população desses municípios, em ambiente rural, a maioria se concentra nas 4 primeiras classes, até 845, indicando que as comunidades são pequenas (figura 4). Já a população quilombola urbana tem sua grande maioria na primeira classe (figura 2) até 46, indicando que as comunidades são ainda menores. A seguir, os histogramas das populações quilombola rural e urbana ilustram tais distribuições – gráfico 2 e 3.
Gráfico 2: Histograma – População Quilombola Rural Fonte: Censo IBGE 2022 | Elaboração própriaGráfico 3: Histograma – População Quilombola Urbana Fonte: Censo IBGE 2022 | Elaboração própria
Apesar das populações analisadas em sua maioria serem alfabetizadas, há indícios de que essa alfabetização não segue o modelo proposto de educação diferenciada, visto que, com base nas figuras 6 e 7, há poucas escolas com materiais diferenciados para educação quilombola, e apenas 85 municípios com a presença delas. Somando as populações desses municípios, há um contingente de 38.338 quilombolas em municípios com taxa de alfabetização que possuem escolas diferenciadas.
Considerando o universo inicial da análise, 93.037 quilombolas, em torno de 41% deles residem em municípios com escolas diferenciadas; sem levar em consideração o trajeto dessas pessoas a tais escolas, já que não foi contemplada nesta análise a localidade das escolas em relação à localidade das comunidades.
Considerações finais
O trabalho trouxe à pauta um tema relevante para a educação do país, em específico para a educação da população quilombola brasileira. Todavia, trata-se de uma análise exploratória que levanta questões a serem melhores analisadas em trabalhos futuros. Ainda assim, mostrou-se relevante ao tema, apontando que a educação diferenciada busca alcançar as comunidades quilombolas.
Referências: BEZERRA CARRIL, L.F. Os desafios da educação quilombola no Brasil: o território como contexto e texto. Revista Brasileira de Educação. v. 22, n. 69, abr.-jun. 2017 BRASIL. Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007. Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 07, dez. 2007. Disponível em: < https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6040.htm > Acesso em: 25/06/2026. BRASIL. Secretaria de Comunicação Social. EDUCAÇÃO – Brasil atinge, em 2025, a menor taxa de analfabetismo do país desde 2016, início da série histórica. Disponível em < https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/06/brasil-atinge-em-2025-a-menor-taxa-de-analfabetismo-do-pais-desde-2016-inicio-da-serie-historica > Acesso em 25/06/2026. IBGE. Malha Municipal. Disponível em < https://www.ibge.gov.br/geociencias/organizacao-do-territorio/malhas-territoriais/15774-malhas.html > Acesso em 22/06/2026 IBGE. Quilombolas: Principais características das pessoas e dos domicílios, por situação urbana ou rural do domicílio: Resultados do Universo 09/05/2025. Disponível em < https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/downloads.html?localidade=BR > Acesso em 22/05/2026 IBGE. O Brasil Quilombola – Primeiro Censo Quilombola. Disponível em < https://www.ibge.gov.br/brasil-quilombola/ > Acesso em 23/06/2026 INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Censo Escolar 2025. Disponível em < https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/censo-escolar/resultados > Acesso em 23/06/2026 MARINGONI, G. História – O destino dos negros após a Abolição. Ipea – Desafios do desenvolvimento. Ano 8. Edição 70. 29/12/2011. Disponível em < https://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&id=2673%3Acatid%3D28 > Acesso em 25/06/2026.